20/11/2006

DECISÃO TOMADA

Colegas, depois de muito refletir finalmente tomei uma decisão: continuarei com o blog.
Claro que meu tempo continua dos mais escassos, afinal não é tarefa das mais simples administrar uma biblioteca municipal. Não esperem, portanto, atualizações constantes. Escreverei quando sobrar um tempinho, e se tiver algo importante para dizer. Não arriscarei dizer com qual periodicidade publicarei novos textos, pode ser uma semana, um mês, seis meses, não sei. Mas com certeza não abandonarei o blog.
Pesou bastante na decisão a manifestação de muitos de vocês me incentivando a continuar. Obrigado a todos! Irei falar de tudo um pouco, mas sempre priorizando, para continuar com a proposta inicial do blog, o pouco visto ou valorizado. Para recomeçar, então, comento os últimos filmes que vi:

Valentin

Alejandro Agresti é o diretor de uma das boas surpresas do ano: A Casa do Lago.
Em "Valentin" ele conta a estória desse garoto de 8 anos, vivendo na Buenos Aires dos anos 60. Filho de pais separados, morando sozinho com a avó (a almodovariana Carmen Maura) Valentin sonha ser astronauta quando crescer, enquanto vai se dando conta das dificuldades da vida e como é complicado entender o mundo dos adultos. Seu pai o visita de vez em quando, enquanto sua mãe é um assunto quase proibido na casa, e embora ausente sua presença é palpável durante todo o filme. O menino sente-se rejeitado por ela, e nunca saberemos o motivo dela não dar notícias, embora possamos intuir a razão ao final.
Ao que parece Valentin tem algo de autobiográfico, e o próprio Agresti interpreta o pai, o que talvez possa ser explicado pelo Dr. Freud.
Valentin é um filme singelo, e muito de sua empatia com o espectador deve-se a interpretação do adorável garoto Rodrigo Noya, com suas argutas observações sobre as pessoas e situações com as quais convive.

O Aventureiro do Tahiti

Se eu fizesse uma lista como aquela do Carlão Reichenbach relacionando meus diretores preferidos, certamente o canadense Ted Kotcheff estaria nela.
Aqui em seu primeiro filme ele assina como William T. Kotcheff.
Na trama, dois militares ingleses encontram-se por acaso na Alemanha do imediato pós-guerra. O comandante Clifford Southey (John Mills) no passado havia sido um réles empregado na firma do tio do Capitão Brett Aimsley (James Mason), um fato que ele pensava estar enterrado. Sentindo-se ameaçado, ele denuncia o Capitão à policia, com a acusação de contrabando. Brett é expulso do exército e recomeça a vida no Tahiti, mas o destino fará com que esses 2 homens reencontrem-se.
Kotcheff trata de um tema, o homem obrigado a viver num ambiente que lhe é estranho, ao qual voltaria de modo mais complexo em Pelos Caminhos do Inferno e Rambo, Programado Para Matar, por exemplo.
Mas o mais interessante é o subtexto homossexual da relação entre os dois.
Visto em VHS, comprado numa locadora por R$1,50!

As Taradas Atacam

A pessoa mais indicada para resenhar esse filme é a Andréa Ormond, não só por ser fã declarada do Carlo Mossy mas também por, sendo carioca, poder reconhecer mais facilmente tipos e paisagens (embora essas possam ter sido modificadas bastante nos últimos 30 anos). Enquanto ela não faz a resenha, deixo aqui meus comentários.
Dividido em episódios, o filme ilustra os “causos” narrados no programa radiofônico “Barulhos da Cidade”.
No primeiro episódio, “Sexo Diferente”, marido propõe a esposa insatisfeita uma fantasia sexual afim de apimentar a relação, mas terá uma desagradável surpresa no final.
“Rapto do ônibus” – Lembra alguma coisa? Sim, o caso do ônibus 174 e o seqüestro ocorrido recentemente. Mossy foi premonitório (ou teria se baseado em algum fato já ocorrido naquela época?) ao mostrar um grupo de passageiros “condenados pela miséria humana”, imersos em seus problemas, que embarcam nesse ônibus destinado a sofrer o que diz o titulo.
Seguem-se algumas entrevistas feitas num estilo cinema-verdade.
Aparece em cena então Pedro de Lara (sim, aquele Pedro de Lara!) fazendo seu costumeiro discurso moralista, em frente a jaula de uma hiena! Hilário!
O próximo episódio, “Como vai o seu peru?”, passa-se no meio rural e trata de matuto tentando trocar um peru por uma transa com a fogosa mulher do vizinho.
Mas se você acredita que Carlo Mossy é incapaz de fazer algo mais sutil ou sensível é porque nunca viu “Sonhos que matam”, fábula chapliniana sobre dois famintos mendigos vagando sem rumo pelas ruas e praias cariocas, até que o mais velho deles encontra a foto de uma jovem, e passa a sonhar com ela. Tocante!
Para encerrar, uma volta a sacanagem do primeiro episódio (que pra ser sincero nem é tanta assim) em “Bacanal Sangrento”, onde a empregada de uma rica família aproveita a viagem dos patrões para promover uma orgia com os amigos na mansão, com resultados imprevisíveis.

E pensar que filmes como esse, que abordavam de forma descompromissada, e mais honesta do que muita produção que se dizia comprometida com nossa realidade, as agruras da população brasileira, eram frequentemente boicotados pela “inteligentsia” que dominava o cinema brasileiro na década de 70, durante uma ditadura militar. Vai entender!

Canta Maria

Assisti esse filme numa sessão quase privativa. Não, não fui convidado pelo diretor Francisco Ramalho Jr. para assistir o filme ao seu lado (aliás nunca o vi mais gordo), muito menos numa cabine de imprensa.
Vi na sessão das 17:10 no Cine Bristol, onde estavam eu e mais 3 ou 4 gatos pingados.
Uma pena, porque voltando a dirigir depois de 20 anos, Ramalho Jr. demonstra que não perdeu a mão nesta bela adaptação do romance Os Desvalidos, de Francisco Dantas.
No meio da luta entre cangaceiros de Lampião e tropas volantes, surge um triângulo amoroso entre Maria, Filipe e seu sobrinho Coriolano.
Não vou me alongar, apenas recomendo a todos que não percam.
Mas quero dizer que tive duas gratas surpresas: a primeira é a trilha musical de autoria da Daniela Mercury, excelente!
A segunda é a interpretação de José Wilker como Lampião. José Wilker ultimamente vinha se especializando em interpretar José Wilker (o que não pode ser confundido com canastrice, mas vai tentar explicar isso pra certas pessoas...).
Esta é a segunda vez este ano que ele se despe de sua persona para incorporar mesmo um personagem, a primeira foi em O Maior Amor do Mundo, de Carlos Diegues. Com isso ele demonstra ser com certeza um de nossos melhores atores.

21 comentários:

Jorge Didaco disse...

Oi Sergio,
que bom que você tomou a decisão de continuar com o blog, ainda mais agora que eu te achei na blogosfera!! 'Valentín' é muito bom mesmo (assim como 'A Casa do Lago'; vc viu 'Buenos Aires Vice Versa'? É extraordinário); assim como vc, adoro Kotcheff (quando será que o magnífico 'Pelos Caminhos do Inferno' será lançado em DVD aqui nos trópicos?); ótimo vc ter gostado de 'Canta Maria', me encorajou a vê-lo nos cinemas e não esperá-lo no Canal Brasil (ah, preguiça mortal!). Um abraço

Graciele disse...

Sergio, que bom que vc decidiu dar continuidade ao blog! Fico muito feliz. Não se preocupe com essa coisa de periodicidade, pois nós, fãs, sempre passamos para conferir se houve atualização.
Não bastasse a ótima notícia, ela ainda veio munida de um excelente post. Adorei sua observação sobre Jose Wilker, pois tb é minha opinião, mas nunca tenho coragem de falar. Que bom que vc fez isso por/para mim! hehe
Bjão!



*ZINGU ROCKS
GALERA DA ZINGU, PARABÉNS! O 2º NÚMERO ESTÁ AINDA MELHOR QUE O PRIMEIRO (QUE JÁ ERA ÓTIMO). KEEP THIS WAY! LI TUDO, ADOREI TUDO!
SERGIO, SEU TEXTO SOBRE A ROSSANA JÁ VIROU REFERÊNCIA PARA QUEM EU MOSTREI. LINDO TRABALHO

Ailton disse...

Decisão mais do que acertada, Sergio. Quanto a CANTA MARIA, estou escrevendo sobre ele. Não gostei tanto quanto vc, mas é um filme bonito. Deve ficar uma única semana em cartaz por aqui...

pedrita disse...

quero muito ver valentín. realmente canta maria é lindo mesmo. me surpreendeu de ser um filme com um triângulo amoroso numa guerra. e não sobre um triângulo amoroso. e sem julgar a favor ou contra volantes e lampião. todos abusavam do poder das armas. também me surpreendi da trilha sonora, já que não sou muito fã do trabalho da daniela mercury. eu vi num cinema no shopping. eu e mais uma senhora na sala. apesar q é comum, já q costumo ir em primeiras sessões de cinema. beijos, pedrita

Ronald disse...

Decisão certa! Não pode parar...
Abraços!!!

sergio disse...

Fala, Jorge! Nunca vi Buenos Aires Vice Versa. Não tinha visto nada do Agresti até A Casa do Lago, e agora Valentin, uma falha imperdoável!!! Onde vc viu?
Já está mais do que na hora de alguém lançar por aqui o "Outback", que é magnífico mesmo!
E um filme do Ramalho Jr. tem que ser saboreado na sala de cinema, ainda mais porque é uma produção caprichadíssima, filmada em Super 35mm.
Obrigado pelo comentário, Jorge! Abraço!

Graciele, obrigado pela audiência :)
Ainda bem que vc acha a mesma coisa sobre o Wilker, não estou sozinho nessa hehehe!
E agradeço em meu nome, e em nome da equipe da Zingu, pelos elogios!
Quanto ao texto sobre a Rossana, devo dizer que a atriz ajudou bastante na inspiração para escrevê-lo :) Beijos!

Valeu, Ailton!
É, acho que Canta Maria não terá melhor sorte por aqui tb. Como vc disse em sua resenha, o filme foi pessimamente vendido. Uma lástima :(

Olá, Pedrita! Tb não sou fã da Daniela Mercury, mas o trabalho dela no filme foi mesmo surpreendente. Uma pena que o filme não tenha sido melhor divulgado.
E não deixe de ver Valentin, é maravilhoso! Beijos!

Ronald, muito obrigado mesmo! Abçs!!!

Eduardo Aguilar disse...

Ótimo retorno!!! Prá ser sincero, nem o cinema de Agresti e o de Ramalho me entusiasmam, e como a minha falta de tempo anda grande assim como a sua, acho q. vou dar preferência a 02 medalhões (Scorsese e Almodovar), mas ao mesmo tempo, como a recomendação é sua, está anotado para o caso de descolar mais tempo.

No entanto, em relação a Ted Kotcheff, sou fã de carteirinha, e apesar de estar com um monte de dvds seus, gostaria de deixar agendado mais esse empréstimo desse filme do Kotcheff, e acredite, vergonha absoluta!!! Nunca vi "Pelos Caminhos do Inferno", acho q. se o tivesse visto, pelo tudo q. li sobre (especialmente Biáfora) eu colocaria esse cineasta no olimpo!! E como vc. falou em 'inteligentsia' sobre o filme do Mossy (deu água na boca), eu diria q. isso rolou a respeito de "Rambo", q. muitos não sacaram a contramão em q. o Kotcheff estava indo.

Ah!!! Entre hoje e amanhã, devo 'postar' um texto em q. rolou um sincronismo contigo, pois tb. usei essa palavra fora de moda (inteligentsia) e q. acho, irá me fazer receber algumas bordoadas - hehehehe.

Michel Simões disse...

Ufa!!! hehe

sergio disse...

Fala, Edú! Os filmes do Agresti e do Ramalho Jr. me agradaram bastante, mas claro que se vc ainda não viu os últimos Scorsese e Almodovar deve assisti-los primeiro, ainda que eu tenha me decepcionado (um pouco) com "Os Infiltrados".

OK, o empréstimo do Kotcheff já está agendado pra vc hehehe! Tenho gravado o do Mossy, pelo que percebi acho que vai querer esse emprestado tb :)
Pelos Caminhos do Inferno tive a felicidade de assistir uma vez, e é mesmo genial! E é isso mesmo, poucos entenderam a verdadeira intenção do Kotcheff em Rambo, e quebraram a cara!

Legal, em breve vou conferir seu novo texto. Abração!

Michel, acho que não entendi bem esse ufa...hehehe! Abç!!!

Moacy disse...

Parabéns por sua decisão, meu caro. Todos nós ganhamos com isso E pelo visto você "voltou" em grande estilo. Um abraço.

Eduardo Aguilar disse...

Fala Sérgio!!! Então, comecei com "Os Infiltrados" e confesso à vc., sai embasbacado do cinema. Ok q. andei perdendo muitos filmes do 'homem', tipo "O Aviador" e "Gangues de N. Y.", mas assim de imediato, sob o impacto pós filme, eu te diria q. considero a obra-prima do cara!!! Sobre o famigerado plano final, o qual já percebi gerou alguma polêmica, eu ainda não o digeri, ficou a sensação q. está bem além da óbvia metáfora. O tempo todo em q. via o filme me veio na cabeça a famigerada homenagem a Kazan trazido pelas mãos de Scorsese em alguma festa do Oscar com Nick Nolte irredutível sem se levantar da cadeira. Daí me ocorreu q. naquele momento Scorsese deve ter tido a vontade de falar sobre o tema, enfim, preciso rever, foram as quase 03 horas mais rápidas q. tive no cinema e q. o Carrard me 'desculpe' -hehehe-, mas o Matt Damon está ótimo no filme, ele é alma do filme!!!

sergio disse...

Valeu, Moacy, muito obrigado mesmo! Abraço!

sergio disse...

Olá, Edú! Desta vez não estamos de acordo hehe!
Esperava bem mais do Infiltrados, talvez porque como eu adoro "Gangues de N.Y." e "O Aviador", estivesse esperando algo do mesmo nível, ou ainda melhor, mas não foi o que vi na tela! Claro que Scorsese sempre merece uma revisão, e pretendo rever em breve, mas sinceramente não acredito que minha opinião vá mudar.
Mas é o que eu já comentei em outros blogues, trata-se de um bom filme de ação, e nesse ponto concordo c/ vc, o melhor ator em cena, para minha surpresa, é Matt Damon!
Qdo rever vou levar em consideração essa associação que vc fez com o episódio Elia Kazan no Oscar. Abraço!

Marcos A. Felipe disse...

Bem-vindo ao mundo dos vivos.

sergio disse...

Obrigado, meu caro Marcos! Estou me sentindo vivo novamente hehe!
Abç!

Roberto Queiroz disse...

Sábia decisão, Sérgio! "No matter how hard you try, always the human being have to select time to do the important tranformations in your life". A frase não é minha, não. É do Richard Dreyfuss no filme Mr. Holland - Adorável Professor. Abraços do crítico da caverna.

sergio disse...

Fala, Roberto! Bela frase, preciso ver esse filme :)
Obrigado pelo comentário. Abraço!

Bakemon disse...

Bom que não foi embora, Sérgio! Afinal todos estamos aqui para nos divertirmos e não por obrigação. Abraço!

sergio disse...

Fala, Bakemon! É isso ai, de obrigação basta o trabalho.
Valeu pelo comentário, Abraço!

Matheus Trunk disse...

Oi Serjão, antes de tudo muito sóbria a tua decisão de voltar a blogsfera. Recebi as coisas do Ivan sim. Vou escrever sobre outros curtas do Ivan e sairá numa sessão do dossiê chamado "curtas"... Fiquei sabendo que na parte de livraria da 2001, já está disponível o livro sobre o mestre Biáfora. Acho que é um assunto que te interessa ! O mestre merece nove mangos. Não vi nada do Agresti e infelizmente nada do Ramalho. Estou sem tempo nenhum, mas como o Aguilar vou privilegiar os "medalhões". Vi o Almodóvar. Dos citados, vi o do Mossy, que sinceramente, não é um dos meus preferidos do cara, embora tenham partes muito engraçadas...Essa trilogia dele é meio ruim, tem um que eu gostei, mas os outros dois são muito iguais...De resto, se tiver tempo faça um texto pro filme, pq eh capaz de ainda fazermos um dossiê sobre o Mossy. E bela volta, ainda não comprei o livro do mestre Biáfora. Na certa irei, mas quero também saber tua opinião sobre o livro.Abraços, Matheus.

sergio disse...

Fala, Matheus! Obrigado pelas palavras!
Valeu pela informação do livro sobre o Biáfora, vou procurar, espero que a Coleção Aplauso tenha caprichado um pouco mais dessa vez. Quando eu o tiver em mãos te digo o que achei!
Da trilogia do Mossy só vi esse, mas gostei bastante, muito divertido e inteligente.
Outro dia vi "Manicures a domicilio", que é médio, mas tem as deusas Adele Fátima (num shortinho matador hehe!) e Marta Moyano!!!
Agora, fazer texto sobre que filme vc está falando? Um dossiê sobre o Mossy seria bacana, sem dúvida.
Abraço!!

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