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22/04/2009

UMA SOBRE A OUTRA




Primeiro filme de suspense de Lucio Fulci, depois de anos dirigindo veículos para a chatíssima dupla Franco Franchi/Ciccio Ingrassia. Filmado em San Francisco, o que imediatamente traz à mente o clássico “Um Corpo que Cai (“Vertigo”). A associação com a obra-prima de Hitchcock não se dá apenas pelo cenário da ação, mas pela própria trama: o Dr. Giorgio Dumurrier trabalha com o irmão numa clínica que está passando por dificuldades financeiras. Ele é casado com Susan, que sofre de asma, e tem uma amante, Jane, fotógrafa de moda. Susan, de saúde frágil, vem a falecer deixando uma fortuna em seguro. Uma noite Giorgio recebe um telefonema anônimo dizendo para se dirigir até um clube noturno onde vem a conhecer a stripper Monica, que é a cara de Susan. E é melhor parar por aqui para não estragar as surpresas que seguirão.

Jean Sorel, o eterno marido cornudo (ou não?) de “Belle de Jour” interpreta Giorgio, mas não vamos nos ocupar dele, pois o filme traz duas das maiores beldades dos anos 60, a italiana Elsa Martinelli (que você pode ver no post ai embaixo) como Jane, e a austríaca Marisa Mell (lá embaixo da página, na cena de strip-tease), ambas em generosas cenas de nudez e sexo, embora o filme tenha chegado a ser proibido na Itália por uma apenas sugerida cena de lesbianismo entre as duas. Vai entender!

“Una sull’Autra” conta com cenas elaboradíssimas, um trabalho realmente excepcional de mise-en-scène de Fulci, aproveitando ao máximo a estranha beleza da cidade de San Francisco. Altamente recomendável!


02/01/2006

FULCI + FLORINDA = OBRAS-PRIMAS



UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER
Carol Hammond tem um sonho recorrente: ela está no corredor de um trem, e as portas das cabines estão trancadas. De repente o corredor está apinhado de gente, homens e mulheres nus, e ela tenta desesperadamente abrir caminho entre eles. Ao abrir uma porta entra num quarto, onde a espera uma bela loira que se aproxima e a seduz. Ao tentar sair do quarto, se precipita num abismo.
A loira existe, é sua vizinha, Julia Durer. Na tela dividida é mostrado o contraste do mundo dessas duas mulheres: enquanto Carol, num ambiente tipicamente burguês, janta civilizadamente com a família (pai, marido, enteada), Julia promove animadas festas regadas à muito sexo, drogas e rock and roll.
O sonho se repete, mas dessa vez no final Carol mata Julia à facadas, para alegria do seu psiquiatra, que acredita que agora ela conseguiu se libertar. Quando Julia é encontrada morta de verdade, do mesmo modo, Carol torna-se a principal suspeita.
Mas muita coisa irá acontecer (pistas falsas, tentativa de suborno, perseguições, suicídio, assassinatos), até que o inspetor de polícia descubra o verdadeiro assassino.
Achei interessante a ambientação londrina, a mesma 'Swinging London" que o conterrâneo de Fulci, Antonioni, retratou em Blow-Up.
O filme traz uma sequência incrível, que já entrou para minha lista de preferidas: a longa perseguição na igreja. São quase dez minutos sem diálogo, em que todos os elementos fílmicos rendem de forma extraordinária: a música de Ennio Morricone, a fotografia de Luigi Kuveiller, a montagem, a cenografia. Cinema puro!
O elenco permite que se faça várias referências: Stanley Baker foi um dos atores preferidos de Joseph Losey em seu exílio inglês; Jean Sorel é o eterno marido da "Bela da Tarde".
E tem a nossa Florinda Bolkan, que talvez nunca tenha estado tão bonita e elegante como aqui. Além de muito talentosa!




O ESTRANHO SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS
Num pequeno povoado italiano, cortado por uma moderna auto-estrada, o pânico toma conta das famílias quando vários meninos aparecem brutalmente assassinados. A rotina do local é transformada com a chegada da polícia e da imprensa.
Vários são os suspeitos: um sujeito com problemas mentais; a filha de um milionário nascido no local, obrigada pelo pai a passar um tempo lá devido a um escândalo com drogas na cidade grande, e que demonstra especial atenção para com jovens imberbes; e Maciara, a feiticeira do povoado.
O filme começa justamente com ela, à beira da estrada, desenterrando com as mãos o esqueleto de um bebê. Todo o conflito parece estar resumido nessa introdução: a modernidade invadindo à força um local que parece ter parado no tempo, com suas crendices, superstições, medos ancestrais.
Florinda cria aqui um tipo completamente diferente do outro filme: suja, maltrapilha, arredia. Ela tem duas grandes cenas: ao ter um ataque na delegacia e depois, ao ser solta por falta de provas, ser assassinada pelos pais dos garotos no cemitério, uma cena que choca pelo realismo.
Outros destaques no elenco são Tomas Milian, como um jornalista; a bela Barbara Bouchet como a filha do milionário e principalmente Irene Papas. A princípio estranhei por ela aparecer tão pouco, e quase pensei que tinha sido desperdiçada. Mas na sequência final entendi o motivo do Fulci tê-la escalado: só uma grande atriz poderia transmitir toda a tragédia de uma situação em poucos segundos. Sua expressão de dor permanece conosco terminado o filme.

P.S. 1: Muita gente critica os títulos com que os filmes são exibidos nos cinemas brasileiros. Para mostrar que não temos exclusividade no quesito título ruim, resolvi pesquisar o título que este filme recebeu em outros países. O que ilustra o post é o cartaz francês (ou seria belga?). "A longa noite do exorcismo"? Onde??? As coisas não melhoram muito na Espanha, onde se chamou "Angustia do Silencio". Na própria Itália teve um título alternativo, "Fanatismo". Finalmente no Uruguai teve o título, que serviu de inspiração para o brasileiro, "El Extraño Secreto del Bosque de las Sombras".
P.S. 2: Mais uma vez agradeço ao Edú Aguilar, do ótimo Cine Rebeldia (link ao lado), a generosidade de ter me emprestado essas duas preciosidades do cinema italiano, permitindo que eu deixasse de ser tão ignorante em relação a esse mestre, Lucio Fulci. Obrigadão, mesmo!!!

21/09/2005

OZU, CAPOVILLLA, FULCI - BREVES COMENTÁRIOS

Também Fomos Felizes (Bakushu)

O cartaz do filme resume do que se trata: um retrato de família. Noriko (Setsuko Hara) mora com os pais, o irmão e sua esposa e dois sobrinhos. Aos 28 anos já é considerada solteirona, e todos tentam arrumar-lhe um marido. Quando ela finalmente decide se casar com o vizinho viúvo, a situação se inverte e os familiares tentarão persuadí-la a desistir do casamento. Com um argumento banal como esse, Yasujiro Ozu alcança o sublime, coisa comum em se tratando dele. Obra-prima!



Harmada

Começa com dois homens caminhando por uma floresta. Eles param à beira de um rio, despem-se e entram na água. Um deles parece se afogar. O outro veste-se e vai embora. Se você quiser esperar por alguma explicação para essa cena, desista. Aliás, o filme não dá respostas fáceis para nada. Paulo César Pereio é o “sobrevivente” do início, e se envolverá com diversas mulheres durante a trama, num espaço de tempo indefinido: duas atrizes de um grupo de teatro mambembe, sendo uma delas mãe de um bebê; a sobrinha de seu patrão; e uma moça que conhece num asilo e que pode ser a filha daquela atriz. Maurice Capovilla, diretor de um dos meus filmes preferidos, O Profeta da Fome, volta à direção depois de um hiato de 27 anos. Talvez o filme se ressinta um pouco disso, pois há quebras de ritmo, algumas cenas poderiam ser encurtadas ou eliminadas, as interpretações são irregulares. Mas também há momentos de pura poesia, e Pereio está genial, principalmente quando seu personagem vislumbra uma possibilidade de redenção dirigindo a “filha” numa peça de teatro. E o final é uma celebração de vida


Os Quatro do Apocalipse (I Quattro Dell’Apocalisse)

Não conheço praticamente nada de Lucio Fulci. Assisti apenas O Deputado Erótico, filme que ficou anos proibido pela censura do regime militar, sendo lançado apenas em 1980 (é de 1972), que gostei bastante, e alguns trechos de Manhattan Baby, que não me impressionaram muito. Confesso que nunca dei muita importância para ele. Apenas este ano comecei a prestar atenção em seu nome, e dois fatores foram fundamentais para isso: os comentários de Carlos Reichenbach no Reduto do Comodoro quando da exibição de Voices From Beyond em sua Sessão Dupla no Cinesesc e uma crítica do Eduardo Aguilar sobre Uma Lagartixa Num Corpo de Mulher, em seu blog Cine Rebeldia. Sábado, ao entrar numa banca de jornais perto de casa, vi que estavam vendendo esse filme. Trata-se de um spaghetti-western, gênero ao qual não sou muito afeito, mas como estava baratinho (R$12,00!) resolvi arriscar, e tive uma boa surpresa. Na verdade o filme é muito mais um drama do que um bang-bang à italiana típico. Aqui Fulci reúne 4 seres sempre marginalizados pela sociedade: um jogador trapaceiro, uma prostituta grávida, um negro com problemas mentais que diz ver pessoas mortas e um bêbado. Eles são enviados pelo xerife de uma cidadezinha para o deserto, onde encontram um sujeito asqueroso, Chaco, que junta-se ao grupo apenas para enganá-los, roubando-lhes o dinheiro e deixando-os amarrados para morrer naquele lugar. Algumas cenas são bem violentas, como quando Chaco tortura um cara com uma faca. Mas também há uma seqüência belíssima, a do parto que acontece numa cidade encoberta pela neve. Enfim, um bom filme.

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