1º Reino - Inferno: Guerra, explosões, violência, tiros, máquinas de guerra, pessoas mortas. Cenas alternadas de documentários e filmes de ficção, numa montagem frenética, vertiginosa, para que o espectador possa sentir todo aquele terror, o inferno na Terra. Dentre as cenas de filmes, trechos de Alexandre Nevsky, Que Viva México (ambos de Serguei Eisenstein), A Morte Num Beijo (Robert Aldrich), Zulu (Cy Endfield), entre outros. Uma voz feminina, em "off", diz: "A duas maneiras de encarar a morte: como o impossível do possível ou como o possível do impossível. Ou "eu" ser outro".
2º Reino - Purgatório: Nesta parte Godard aparece como ele mesmo. Ele encontra-se em Sarajevo, no Encontro Literário Europeu, para dar uma palestra sobre texto e imagem. Escritores de várias partes do mundo participam do evento: espanhóis, palestinos, russos, 3 americanos de origem indígena (que servem para que ele possa criticar o genocídio de uma raça e de uma cultura), etc. Alguém pergunta: "Gostaria de saber porque os homens mais humanos não fazem a revolução?" Godard responde: "Porque os homens mais humanos constroem bibliotecas...e cemitérios". Eles vão visitar a biblioteca da cidade, no caminho o escritor espanhol diz: "Matar um homem para defender uma idéia não é defender uma idéia, é matar um homem". A biblioteca foi destruída durante a guerra civil e agora passa por uma reforma. Uma menininha vai com o pai doar um livro. Esta parte do filme trata justamente disso, de uma cidade, um país que ressurge das cinzas da guerra, tenta se reerguer, voltar a viver normalmente, recuperar o passado para poder enfrentar o futuro, como vemos nesta seqüência e na visita a ponte de Mostad, construída no séc. XVI e dinamitada na guerra, tendo agora suas pedras encaixadas umas nas outras, como num grande quebra-cabeças.
Outra seqüência inesquecível é a entrevista que o escritor palestino dá para a jornalista de origem judaica. Ele começa dizendo que a história de Tróia foi contada por um poeta grego, e questiona: Será que um país que possua grandes poetas tem o direito de destruir um país sem poetas? A conversa entre os dois gira em torno da questão entre Palestina e Israel, o conflito árabe-judaico, quem é o vencedor, quem é o vencido.
Nesta parte temos também a aula de Godard em que ele trata do procedimento mais básico da linguagem cinematográfica, a montagem em campo-contracampo, justamente para questionar essa prática. O que é uma imagem, qual o significado de um plano, qual a diferença entre o real e o imaginário, o documentário e a ficção, para que serve o cinema. São todas questões levantadas por ele. Quando alguém lhe pergunta se o digital vai substituir a película, o Mestre se cala. Esses poucos minutos do filme servem como um curso inteiro de cinema.
O Purgatório se encerra com o suicídio da jovem jornalista judia.
3º Reino: Paraíso: Acompanhamos a jornalista caminhando por um bosque, por onde passa um rio de águas calmas. Este Paraíso é guardado por marines americanos, mas eles parecem mais interessados
Neste belíssimo filme, Godard comprova que, aos 74 anos, continua sendo o mais revolucionário dos cineastas, sempre inventando novas formas de narrar um filme, e procurando respostas para os graves problemas que afligem a humanidade."
* Publicado originalmente no dia 11/02/05, no blogue antigo.
Este filme será exibido sábado, dia 22, às 06:30hs, no Telecine Cult.
Lançado em DVD pela Califórnia Filmes.